segunda-feira, 27 de junho de 2016

Luciano Calçolari: o domador de ansiedade

CALÇOLARI E EU: O CORTE DELE TAMBÉM FUNCIONA COMO "CALMANTE NATURAL"

Em 25 anos de profissão, Luciano Calçolari cortou mais de 10 mil cabelos. Casado e pai de León, de 1 ano e 9 meses, nesta entrevista feita no salão L'Officiel 3, em São Paulo, ele fala sobre a moda entre as jovens de descolorir o cabelo em casa, revela sua marca registrada, aponta tendências e se derrete ao contar qual é o seu maior sonho atual.

Lidice-Bá: Quando você descobriu que era cabeleireiro? 
Luciano CalçolariVivo nesse meio desde que nasci. Tenho parentes, primos, umas 20 pessoas da minha família têm a mão na tesoura. Um dia minha mãe me trouxe e fiquei de ajudante, lavando cabelo. Um ano depois, fui fazer um curso, morei fora e segui.

LB: Todo grande profissional tem uma marca registrada. Qual é a sua?
LC: Tratar todo mundo do mesmo jeito, tomar o tempo que tiver que tomar com cada cliente, mesmo que esteja com quatro ou cinco - e atrasado naquele momento. Ter calma, paciência, não correr. Meu ponto é esse: não fazer nada atropelado.

LB: Eu corto o cabelo há 17 anos com você e sinto que você "baixa minha ansiedade". Você tem esse dom?
LC: Sim, e é de propósito que eu faço isso. Às vezes a cliente chega eufórica, dizendo "eu quero isso", "eu quero ficar loira", e tem muita coisa que não vai ficar boa. Deixa primeiro eu conversar contigo, detectar o que está acontecendo? Depois a gente chega a uma conclusão. Hoje o salão abre à tarde e uma cliente chegou aqui de manhã, de tão ansiosa. Não cortei como ela queria - mas fiz o que tinha que ser feito e ficou ótimo.


LU CALÇOLARI: PERCEPÇÃO AGUDA PARA CAPTAR O QUE A CLIENTE QUER - E O QUE ELA PRECISA

LB: De onde você tira a inspiração para cortar tantos cabelos diferentes?
LC: Eu sou estudioso. Pesquiso muito na internet, e não só corte de cabelo. Eu vejo exposições, falo com os meus amigos, converso com gente muito mais jovem do que eu, tipo as amigas da filha da minha mulher, que têm 15, 16 anos.

LB: Essa meninada tá pintando o cabelo?
LC: Essa meninada tá fazendo tudo - inclusive pintando o cabelo. Pintam o cabelo sozinhas e é muito errado fazer isso porque a chance de dar algum problema é grande. Elas estão usando muito os tons primários, vermelho, azul, cor de rosa, e pra fazer isso você tem que primeiro descolorir o cabelo. Isso é um grande problema hoje. Nessa hora de descolorir vai dar uma fritada no cabelo.

LB: Isso é um risco para a saúde ou só para o cabelo?
LC: Só para o cabelo. Para a saúde não tem perigo porque elas pintam mais nas pontas, e aí depois vai ter que cortar curto.

L'OFFICIEL 3: ÀS SEGUNDAS O SALÃO ABRE ÀS 14 HORAS MAS TEM CLIENTE QUE CHEGA BEM ANTES

LB: Quais as tendências?
LC: Hoje uma tendência forte é aquela coisa masculina, meio de barbeiro. Tem mulheres cortando desse jeito, usa-se máquina. Quando é bem feito, é muito bonito o corte bem curto, com volume em cima, topete... Meio Elvis Presley, meio rockabilly... Acho bonitos esses topetes grandes, penteados de lado. Tem um corte desses muito legal que é o undercut: ele é mais curto embaixo e mais comprido em cima, e você pode usar para trás, para frente, para o lado, de várias formas.

UNDERCUT: TENDÊNCIA DE CORTE FEMININO É MASCULINA

LB: Cabelo longo tá fora de moda? 
LC: O longo é sempre tendência, mulher adora. É igual calça jeans, não sai da moda jamais. Aliás, eu também gosto, acho sexy. Tem gente que precisa ter cabelo pra fazer um rabo, se sente segura. O longo bacana hoje passa da altura do seio e é mais desfiado na ponta. Não precisa ser escovado, pode ter ondas e uma cor bonita, tipo de quem tomou sol na praia sozinha. Estilo praiano, sabe. Isso me seduz.

LB: Você já errou feio no cabelo de alguém?
LC: Não. Talvez eu tenha errado não no cabelo. Às vezes a pessoa vem com uma expectativa e, por eu ter essa coisa de baixar a ansiedade, falar pouco, não ser extrovertido, talvez seja um erro. Mas é meu jeito, eu tenho que estar ali no cabelo.

NO SALÃO, LU (AO FUNDO, DE COSTAS) TRABALHA QUIETO, CONCENTRADO E COM PULSO FIRME

LB: Já teve que dizer não alguma vez para uma cliente?
LC: Já. Na minha profissão o mais legal é você falar a verdade. Uma vez tive que dizer não para você, né, porque você tinha acabado de se separar e veio cortar o cabelo completamente fora... [Eu era o retrato da dor quando decidi cortar no dia seguinte após a separação]. Eu poderia cortar um cabelo maravilhoso naquele dia que não ia te fazer bem porque naquele momento não era hora de você cortar. Poderia ser dali a uma semana, 10 dias. Tenho esse papo reto com as minhas clientes.

EU NO TROFÉU IMPRENSA, EM 2001: LUCIANO SÓ CORTOU MEU CABELO 1 MÊS APÓS A SEPARAÇÃO

LB: Como a beleza evoluiu ao longo de seus 25 anos de carreira?
LC: Cabelo virou um monte de coisa, né. Hoje você pode mudar uma cliente tingindo, fazendo reflexo, permanente e, também, com a tesoura. Não precisa ser só na tesoura. Nem mudança radical. Hoje se você tem o cabelo preto eu posso deixar meio acobreado e você vai ser outra pessoa - e continuará cabeluda. Tem horas que mudar a cor fica muito mais legal do que cortar. Dá uma aquecida.

LB: Quando é a hora certa de recomendar uma mudança radical para uma mulher?
LC: Se ela acha que já tá com a mesma cara faz tempo, quando tá infeliz ou se tá querendo um desafio. Porque quando você muda o cabelo, invariavelmente você vai querer mudar a roupa, o seu estilo, daí você entra numa loja e compra uma roupa nova, fica feliz, fica com tesão, sacou. Dá um negócio gostoso [ri].

LB: O que falta realizar? 
LC: Acabei de ter um filho, de 1 ano e 9 meses [muda a voz abrindo um sorriso], e acho que o meu maior desafio é um dia ver o León cortando cabelo aqui do meu lado, cara. Se ele quiser, né. Não vou forçar, mas seria o maior prazer da minha vida.

LU: PERDÃO PELA ANSIEDADE, MAS EU AINDA VOU CORTAR MEU CABELO COM O LEÓN!

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